sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Alice no país das insolvências

O sol assemelhava-se a uma aboboreira que tinha rebentado em flores flavas, a terra deslustrava-se à medida que o relógio se ia adiantando e o céu escurecia o seu cerúleo até se tornar num azul-da-prússia como uma bonita rosa híbrida abrochando novamente até ao seu estado original.
Alice contava o número de gotas de água que caiam no charco, eram os seus olhos destilando-se, há tanto tempo o faziam que perder a viveza da sua estranha cor énea. Os cabelos longos e revestidos a douraduras radiosas prendiam-se num toucado restringido, eram como um botão encasulado à espera de desabrolhar. No vento cabriolavam as folhas avelhentadas de um livro cotiado, tinham caligrafias cuidadas e perfeitamente alinhadas, mas agora esfarelavam-se como que, esmagadas por mãos de titãs.
O país das maravilhas perdera-se para sempre tornando-se nada mais do que um juncado de flores vulgares.
Não sabia onde estava, parecia-lhe apenas um país árido, um retrato a sépia, sem lais melodiosas, vergas-áureas prodigiosas, sem fadinhas de cachos anelados, nem gnomos fofos e de olhos de turquesa pálida.
Oh quanto infrutescência e inflorescência!!! Quantos bobos de momices e ditos chocarreiros! Quantas áulicas figuras que faltavam à verdade, exuberância de seiva em flores despeteladas, quanta luxúria em peitos de silicone, gula nos anafados senhores feudais, carteiras que excedem mas nem querem dar os restos, balanças desiguais que pendem mais de um lado do que para o outro, tergiversados discursos…
Alice quis fugir, mas estava rodeada de belzebus, mafarricos de máscaras bonitinhas. Belial, o demónio de todas as mentiras, sobejava em altura, as mãos anafadas e compridas depressa a agarraram, de repente começaram a surgir Lucianas Abreu por todos os lados, de mortais peitos siliconados, oh quanta adversidade!
Guitarras portuguesas tocam as suas roufenhas músicas, ah saudade saudade!!! Essa arte de fixar numa chapa sensível, por meio da luz, a imagem dos objectos, não há quem celebrasse em verso essa grandeza do passado do que os mortos!!!
De súbito , um Mephisto sedutor que vem de mãos dadas com a desgraça , fechando todas as maternidades e escolas, exaurindo todos os cofres.
Alice consegue fugir, refugia-se numa casa, está praticamente vazia, sem querer, carrega num botão do comando da televisão, número quatro, sexta-feira treze e aparece um jurássico e impregnado de botox belzebu. Afinal descobriu que era uma apresentadora de televisão.
Continua a correr, exsuda-se como se lentamente desaparecesse, o coração coarcta-se em espinhosos casulos, é-lhe difícil respirar, não demora muito até esvaziarem o resto da casa…
A noite finalmente chega, afumando toda a terra, o retrato fica a preto e branco. Vampiros sugam lentamente todas as pessoas, mesmo sem elas darem conta.
Se existe mesmo a metempsicose, Alice preferiria reencarnar num cãozinho, haverá algo melhor do que dormir todo o dia, comer e receber festinhas ? (se calhar ainda lhe dão o ordenado mínimo).
Que verdadeira comédia divina de Dante, infernus, samsara, sheol apertadinho para milhares de pessoas!!! Lilith és uma verdadeira parideira!!!
Foi aí que Alice descobriu que estava no país da insolvências, numa outra palavra, em Portugal.

"Anger makes dull men witty, but it keeps them poor."

Listening to Templates by Morgana 13 Luas Kalmah - Holy symphony of war

2 comentários:

Bruno Pereira disse...

XD grande critica social. Muito bem escrito :)

Andreia Carvalho disse...

Ainda antes de ler o texto, já eu estava a prever que fosse aterrar em Portugal. Bastava-me olhar para o titulo que logo percebia isso. Demónios e bruxinhas que nos atormentam, neste país culturalmente virado para a Super Bock e as claques frenéticas a competir com as Senhoras (que só fazem pela vida, diga-se) do mercado mais popular do território lusitano. Mas à bom inglês (e Nirvanês) xD, whatever...nevermind. Fica logo tudo resolvido. Pro' lado é que dormem melhor -_-'